Às sete da manhã, o Pelourinho ainda é dos moradores. Os turistas chegam mais tarde, com câmeras e mapas no celular. Mas nessa hora, o bairro pertence a Dona Zélia, que abre a padaria às 6h30 e já serviu o primeiro café antes de qualquer ônibus de excursão aparecer. Pertence ao senhor que varre a Rua das Laranjeiras com uma vassoura de palha. Pertence às crianças que descem correndo para a escola.

O Pelourinho que aparece nos cartões-postais é real. As casas coloridas existem. O Olodum toca. A capoeira acontece. Mas existe outro Pelourinho, que coexiste com o turístico sem se confundir com ele.

Passei três semanas no bairro, voltando sempre em horários diferentes, conversando com quem mora lá de verdade — não os que chegaram depois da reforma dos anos 1990, mas os que ficaram, os que voltaram, os que nunca saíram.

A história da revitalização do Pelourinho é complexa. A reforma promovida pelo governo do estado a partir de 1992 salvou os casarões coloniais, mas expulsou milhares de moradores de baixa renda que viviam no bairro. Muitos foram reassentados em conjuntos habitacionais distantes. Alguns voltaram como trabalhadores do turismo. Outros nunca voltaram.

"Minha família morou aqui por três gerações. Quando reformaram, a gente foi embora. Voltei porque consegui trabalho numa pousada. Mas não é a mesma coisa", conta Seu Gilberto, 54 anos, porteiro de um hotel boutique instalado num casarão do século XVIII.

O que o turismo mostra é uma versão curada do passado. O que os moradores vivem é uma negociação constante entre memória, identidade e sobrevivência.